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Marcos Guterman erra de novo sobre Flotilha da Liberdade

Em fevereiro demonstrei aqui que o colunista do Estadão Marcos Guterman estava mal informado – no mínimo – ao afirmar que não se sabia “de alguma valente ‘flotilha da liberdade’ despachada para ajudar as vítimas” da guerra civil na Líbia. Guterman passa por cima dos fatos e evidências em um discurso que visa desmoralizar as entidades humanitárias que tentam ajudar palestinos, numa retórica – falsa – de que as entidades que organizaram a flotilha da liberdade agem apenas por motivações anti-israelenses e não se importam com outras catástrofes humanitárias.

Pois bem, seis meses depois, Guterman erra novamente em sua tentativa de deslegitimar as entidades humanitárias que tentam romper o embargo criminoso imposto por Israel na faixa de Gaza – que limita a entrada de ajuda humanitária na região. O colunista usa a mesma retórica que usou para os Líbios em novo artigo intitulado “Os somalis esperam uma “Flotilha da Liberdade”.

Pois bem, não só uma, mas várias flotilhas da liberdade já partiram para a Somália, organizadas pela mesma IHH turca – Foundation for Human Rights and Freedoms and Humanitarian Relief – entidade humanitária que organizou a Flotilha da Liberdade para Gaza, que Guterman tanto gosta de citar em vão.

Enquanto Guterman criticava “as entidades especializadas em despachar ‘Flotilhas da Liberdade'” por sua falta de ação na Somália, a IHH estava mantendo campos de ajuda em mais de 70 países, incluindo Somália, Líbia e Síria. E apesar de ter sua ação limitada em território Palestino pelas forças israelenses, vem realizando um trabalho importante no alívio da crise humanitária em Gaza.

Um dos barcos da IHH que parte para a Somália chama-se Gaza.

Agora pergunto: se Guterman não se retratou ou corrigiu as informações – ou a falta de – na primeira vez que errou, será que irá se corrigir desta vez?

UPDATE: Guterman, com citação explícita a este artigo, se retratou em seu blog.

Campo da IHH na Somália em Julho.

PS. Pesquisei e não deu outra: “Where’s your flotilla?” virou uma falácia internacional da retórica pró-israel.

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Genocídio no curdo dos outros é refresco, caro Guterman

Em post no blog que mantém no Estadão – o mesmo veículo que deu lição de mau jornalismo no caso das mentiras sobre censura ao Google – o jornalista e historiador Marcos Guterman reclama:

Procuram-se humanistas de verdade: A propósito de hipocrisia, enquanto Kadafi massacra civis, não há notícia de passeatas na avenida Paulista em defesa da população líbia, nem se sabe de alguma valente “flotilha da liberdade” despachada para ajudar as vítimas desse verdadeiro genocídio.”

A propósito de hipocrisia, o mesmo Guterman reclamava em seu blog há pouco mais de dois anos, do uso da palavra “genocídio” pela opinião pública para descrever as atrocidades de Israel contra civis palestinos. Dizia Guterman:

“Mas que genocídio? Chamar de “genocídio” a morte de 0,05% de uma população (…) numa guerra em que ambos os lados estão armados, é uma clara manobra para demonizar Israel.”[1]

Para Guterman, o genocídio “verdadeiro” é praticado pelos líbios contra os líbios, chamar de genocídio os crimes sistemáticos do estado israelense contra a população civil palestina é “manobra pra demonizar Israel.”

Diferente do que Guterman acredita, os mesmo ativistas que lutam pelos direitos humanos em Gaza, lutam pelos direitos humanos em qualquer lugar. Guterman não “sabe de alguma valente ‘flotilha da liberdade’ despachada para ajudar as vítimas”. Pois eu sei. A ativista pelos direitos humanos Mona Seif, uma das organizadoras da Flotilha da Liberdade para Gaza, heroína da resistência em Tahrir, ajudou a organizar uma “Flotilha” de ajuda médica para os líbios, três dias antes de Guterman publicar sua reclamação.

O blogueiro também não sabe, mas voluntários da ONG turca IHH Humanitarian Relief Foundation, que promoveu a Flotilha da Liberdade para Gaza ao qual Guterman faz alusão, estão nesse momento na fronteira líbia cuidando de civis feridos.

Como visto, se Guterman não sabe da existência de alguma coisa, não quer dizer que ela não exista. E outra flotilha de ajuda humanitária para os líbios é uma das principais reivindicações dos ativistas de direitos humanos pelo mundo. Até a Bianca Jagger já tuitou sobre isso.

Talvez ainda não tenha tido passeata na Paulista contra os crimes de Kadafi – até porque não há quem pressionar, pois diferente do caso do bloqueio Egipcío-Israelense à Gaza, as nações ocidentais estão todas se movimentando rapidamente para condenar o regime e planejar ações – mas a embaixada da Líbia no Brasil amanheceu pixada com frases de protesto e a Líbia é o alvo preferido do momento nas redes sociais. Em diversas cidades do mundo pessoas protestam contra o regime de Kadafi. Até em Gaza centenas de palestinos – inclusive do Hamas – saíram ás ruas em solidariedade aos manifestantes líbios.

As entidades de defesa dos direitos humanos que criticam Israel pelo tratamento aos palestinos – Anistia Internacional, Human Rights Watch, entre outras – tem se posicionado e organizado ações contra violações dos direitos humanos praticados pelo governo de Kadafi.  Anonymous vêm operando a #OpLibya mesmo antes até dos protestos terem começado.

No Egito, grande parte dos organizadores das demonstrações em Tahrir – e principalmente o núcleo duro que resistiu às investidas violentas da polícia de Mubark tentando evacuar a praça – foi formada por cidadãos egípcios acostumados a resistir e apanhar da polícia quando protestavam contra o bloqueio patrocinado também pelo Egito à Gaza, e contra a conivência do seu governo em relação às recentes violações aos direitos humanos cometidos por Israel em Gaza.

As acusações de hipocrisia de Guterman não procedem, e podem ser vistas como “uma clara manobra para demonizar” os ativistas que reclamam da violação dos direitos humanos por Israel. Ou seja, se Guterman não encontra seus humanistas de verdade, é porque não quer encontrar. Ou não sabe procurar.

Procuram-se jornalistas de verdade, os humanistas poderiam devolver.

http://www.facebook.com/oppalestine

Fernando Marés de Souza

PS. Há divergência sobre a definição de Genocídio, mas para mim, todo crime sistemático contra a população civil, contra indivíduos desarmados, por motivos étnicos, religiosos, nacionais, políticos ou econômicos, pode ser visto como Genocídio e deve ser encarado como tal.

Parabéns ao conselho da ONU para prevenção ao genocídio por condenar Kadafi, mas gostaria de ver a mesma disposição para pressionar a investigação e punição dos crimes de guerra praticados pelo exército de Israel em Gaza e pelo exército americano em Fallujah e outras cidades.